Como um golpe silencioso na nossa representação política, dado há quase cinco décadas, explica por que o seu voto hoje não consegue mudar o Brasil.

Ontem à noite, enquanto comia um espetinho na festa junina do meu prédio, sentei-me para conversar com o Daniel, meu vizinho e amigo de longa data. Nós dois temos algo em comum: cruzamos os últimos 60 anos do Brasil já com a consciência da vida adulta. Olhando as crianças correndo, o Daniel soltou um suspiro e me disse: “Olho para os meus netos e me pergunto que país sobrou para eles. A gente trabalhou a vida toda, viu o mundo mudar, mas parece que o Brasil continua preso na mesma armadilha”.

Aquela conversa me tirou o sono e me fez olhar para trás. Percebi que o desabafo do Daniel é o mesmo de milhões de brasileiros que estão exaustos, mas que buscam o culpado no lugar errado. Nós fomos convencidos de que o maior problema do país é uma guerra santa entre a esquerda e a direita. De um lado, camisas vermelhas; do outro, camisas verde-amarelas. Enquanto a população se agride nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e nas mesas de jantar defendendo seus políticos de estimação, o país continua patinando.

A verdade que a conversa com o Daniel me fez querer colocar no papel é que o debate ideológico no Brasil virou uma cortina de fumaça para esconder os efeitos de 1977.

O verdadeiro problema do Brasil não é de esquerda ou de direita. O nosso problema é um sistema viciado de incentivos distorcidos, cujo motor foi montado em abril daquele ano fatídico, através do que ficou conhecido como o ‘Pacote de Abril’. Foi ali que desenharam o mecanismo que premia quem tem conexões políticas, sub-representa os estados mais produtivos, e distribui o dinheiro de quem trabalha para grupos de interesse sobre-representados.

Para entender o tamanho do nó cego que vai sufocar os meus netos e os netos do Daniel se não reagirmos, precisamos auditar, sem paixões, a nossa história recente. Para isso, quebrei o período em 4 ciclos distintos e não coincidentes com os períodos eleitorais.

Temporada 1 (1964–1980): O Pacto com o Diabo

A nossa jornada começa com o regime militar. A mentalidade da época era: “O Estado vai construir o Brasil Grande à força, não importa o preço”.

  • O que foi feito de bom: Estradas, usinas elétricas e um sistema de telecomunicações. O PIB cresceu rápido, chegando a picos de 10% ao ano no auge do Milagre Econômico.
  • O preço que pagamos: Para financiar essas obras, o governo pegou bilhões emprestados no exterior. A dívida externa saltou de US$ 3 bilhões para mais de US$ 50 bilhões, e o governo começou a imprimir dinheiro sem lastro.
  • O veneno deixado: Para garantir o apoio político à ditadura, o Pacote de Abril de 1977 alterou a proporcionalidade dos deputados federais e criou os senadores biônicos. O regime mudou as regras para que estados menos povoados e mais fáceis de controlar passassem a ter mais deputados, proporcionalmente à população, do que os estados grandes e produtivos (como São Paulo). Criou-se ali o “curral eleitoral moderno”, dando um poder de veto gigantesco às oligarquias regionais. O resultado dessa temporada foi uma dívida externa impagável e a explosão da inflação para 110% em 1980.

Temporada 2 (1981–1993): A Década da Sobrevivência

Com o colapso do modelo anterior, o Brasil faliu. O dinheiro perdeu o valor tão rápido que os funcionários dos supermercados remarcavam preços várias vezes ao dia. Eu e o Daniel nos lembramos bem do desespero de receber o salário e correr para fazer as compras do mês, puxando dois ou três carrinhos como se fossem uma composição de um trem, antes que o dinheiro virasse pó.

  • O que foi feito de bom: Embora a economia estivesse em ruínas (o PIB per capita encolheu -0,5% ao ano na década de 1980), foi o período em que a sociedade se uniu para reconquistar a democracia e criar a Constituição de 1988. Foi aqui que nasceram os direitos básicos que temos hoje, como o SUS e a universalização da escola básica.
  • O preço que pagamos: A produtividade do trabalhador brasileiro despencou. As empresas pararam de modernizar suas máquinas e passaram a viver de especulação financeira para não perder dinheiro para a hiperinflação, que atingiu o topo absurdo de 2.477% ao ano em 1993.

Temporada 3 (1994–2005): A Fase da Racionalidade

Cansado do caos, o país finalmente permitiu que a técnica e a ciência econômica organizassem a casa.

  • O que foi feito de bom: Economistas criaram o Plano Real, domaram a inflação e deram ao trabalhador uma moeda de verdade. O Estado vendeu empresas estatais ineficientes que só davam prejuízo e criou a Lei de Responsabilidade Fiscal em 2000: político que gastasse o que não tinha iria para a cadeia. Adotou-se o tripé macroeconômico e foi criado também o embrião da rede de proteção social focada (o Bolsa Família), mostrando que era possível ter responsabilidade fiscal e social ao mesmo tempo.
  • O erro: O país estabilizou, mas não teve a coragem de abrir a economia de verdade para o mundo ou de desarmar a bomba-relógio política da sub-representação criada na década de 1970, pelo ‘Pacote de Abril’.

Temporada 4 (2006–2026): O Sindicato dos Grupos de Interesse

Com a casa arrumada e o mundo comprando alimentos e minérios do Brasil a preços recordes (o famoso superciclo das commodities), o Estado brasileiro se sentiu rico novamente. E o velho vício Estatal, de achar que sabe o que é melhor para a economia e gastar com subsídios em excesso aos amigos do rei, retornou com força total.

  • O que foi feito de bom: A miséria extrema caiu de forma histórica. Milhões de brasileiros ganharam acesso ao consumo e ao crédito.
  • O preço que pagamos: Em vez de usar a riqueza para melhorar as escolas, as ferrovias e a tecnologia das indústrias, o governo usou o dinheiro público para sustentar um gigantesco “capitalismo de compadrio”. Empresas ineficientes ganharam bilhões em subsídios porque eram amigas do rei. Sindicatos de servidores públicos e corporações políticas capturaram o orçamento.
  • A realidade atual: A produtividade do trabalhador brasileiro hoje está praticamente zerada em relação a vinte anos atrás. Nós não enriquecemos produzindo mais; nós apenas gastamos a herança de uma bonança externa que já acabou. O orçamento do país foi sequestrado por emendas parlamentares bilionárias (as famosas “Emendas Pix”), transformando o dinheiro dos seus impostos em moeda de troca política paroquial para garantir a reeleição de quem já está lá.

O Nó Cego: Por que Nada Muda?

Aqui está o coração do problema que o Daniel e eu discutíamos ontem. O Brasil hoje está travado porque as lideranças que dominam o cenário político atual, do PT de Luiz Inácio Lula da Silva à família Bolsonaro representada pelo senador Flávio Bolsonaro, jogam exatamente o mesmo campeonato.

Nenhum desses lados quer mudar as regras do jogo. Ambos dependem do chamado “Centrão” para governar. E quem é o Centrão? É exatamente o bloco político herdeiro daquela distorção federativa lá de 1977. Políticos de regiões hiper-representadas que controlam o orçamento federal através do poder de veto.

Para esse ecossistema político e para as indústrias protegidas por tarifas e subsídios, o Brasil atual está ótimo. Eles extraem recursos de quem produz e distribuem entre si. A briga ideológica simulada, de esquerda contra direita, na televisão e nas redes sociais, é o espetáculo perfeito para manter o eleitor distraído enquanto eles dividem o bolo nos bastidores, inclusive com o cometimento de ilícitos.

Um Chamado à Racionalidade

Cidadão brasileiro, se você quer deixar um país viável para os seus filhos e netos, inclusive os meus e os do Daniel, você precisa parar de votar com o fígado e passar a votar com o cérebro.

Não importa se o candidato se diz defensor dos valores da família ou protetor dos oprimidos. As perguntas que você deve fazer a qualquer político nas próximas eleições são:

  1. Você vai defender e votar pelo fim dos subsídios e das tarifas que protegem empresários ineficientes e encarecem os produtos para o povo?
  2. Você vai defender e votar uma Reforma Política real que acabe com o peso distorcido de estados menos populosos e aproxime o deputado do eleitor?
  3. Você vai defender e votar para tirar o controle do orçamento das mãos de barganhas paroquiais e devolvê-lo ao planejamento técnico?

Se as respostas forem “não” ou se o candidato preferir desviar o assunto atacando o adversário ideológico, ele faz parte do problema. Ele é a continuidade do modelo que está asfixiando o nosso futuro desde 2006.

Está na hora de quebrar o sindicato dos grupos de interesse nas urnas. O Brasil só terá salvação quando a busca por produtividade, eficiência e justiça institucional for maior do que o fanatismo por mitos e siglas partidárias. Acorde, enquanto ainda dá tempo.

Post Original: https://www.linkedin.com/pulse/1977-o-ano-fat%C3%ADdico-sergio-werneck-filho-cfp–nvdvf/

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